Como lidar com déspotas - The Economist - 30-07-2022

 Política externa ocidental tenta ser ética, mas acaba sendo ineficaz

Por volta de quinze após a queda da União Soviética em 1991, a política externa ocidental parecia estabelecida em bases sólidas. Valores liberais – democracia, livre mercado e prevalência da lei - prevaleceram sobre o comunismo. Os EUA, a primeira e única superpotência tinha a influência para impor este código moral para terroristas e tiranos. Um amor complicado e justificável, porém a história mostrou que valores ocidentais são uma incontestável fórmula para paz, prosperidade e progresso.

Quinze depois, a política externa ocidental está uma bagunça. Para entender, considere Muhammad Bin Salman, príncipe da Arábia Saudita. Ele ilustra a erosão dos três pilares da política externa ocidental – valores, poder e seu destino histórico.

O cálculo moral tende a ser fraudulento. O príncipe é violento, errático e opressor com seus inimigos. Está sendo responsabilizado pela morte de um colunista do Washington Post. Ainda assim, ele é um considerado um modernizador que promoveu a liberalização da sociedade saudita, nacionalizando os clérigos do reino e dando mais liberdades às mulheres. Mesmo que se duvide do zelo reformista do MBS, a Arábia Saudita é um produtor de petróleo que pode auxiliar os EUA e seus aliados a enfrentar um homem ainda mais perigoso: Vladimir Putin. Seria ético evitá-lo ou tolerá-lo?

MBS nos mostra que o poder americano é menos impositivo que há 15 anos. A Arábia Saudita tem sido próxima aos EUA desde 1945, porém MBS há muito esnoba de Joe Biden, seja ignorando suas ligações telefônicas, seja aproximando-se da Rússia e China. Arábia Saudita é um aliado importante no Oriente Médio, que os EUA tentaram se aproximar com a invasão do Iraque, apesar que EUA e seus aliados ainda estejam juntos, a guerra indispôs os eleitores ao ver seu exército agindo como a polícia do mundo. A relutância deles é compreensível. As guerras demonstraram que não dava para transformá-los em liberais na bala.

E a história vira. O jovem apressado MBS acredita que pode fazer seu país prosperar igual os países ocidentais sem a inconveniente democracia e direitos humanos. Justin Bieber e competições de destruição de caminhões ficam confortáveis próximos a seu poder despótico.

MBS não está sozinho. China confirma os méritos dos direitos humanos que coloca paz e desenvolvimento econômico acima de eleições livres e da liberdade de expressão.

Putin invadiu a Ucrânia numa guerra contra os valores iluministas por um regime amarrado ao fascismo Russo. Quando os líderes globais ameaçam os países do sul para levantar contra o regime do Putin, muitos dizem que eles perderam a paciência com a pregação hipócrita ocidental que esporadicamente invade outros países ao seu bel prazer.

A The Economist não perdeu a fé nas bases que emergiram do Iluminismo. Valores liberais são universais. Porém a estratégia ocidental de promover essa visão de mundo está decrepitando e os EUA e seus aliados precisam de mais clareza. Precisam balancear o desejável do possível. Ao mesmo tempo precisam partir dos princípios que o tirem do cinismo do Putin e suas desolações e mentiras. Isso parece um consenso de perfeição. Funcionaria?

A melhor forma de evitar chantagens hipócritas é não se abster de defender posições morais que não podem cumprir. Durante a campanha eleitoral, Biden prometeu tratar Arábia Saudita como “pária”. Mas este mês quando foi à Judá e cumprimentou MBS e fora duramente criticado pela hipocrisia e covardia moral. De fato, seu erro foi prometer em público e que virou uma pedra no sapato na presidência.

Líderes ocidentais precisam ser honestos em quanta influência eles possuem. A suposição que eles dependem mais do ocidente que o ocidente deles já não é tão verdade. Em 1991 o G7 produzia 66% da cadeia global, hoje somente 44%. Em retrospecto é arrogante pensar que ditaduras podem ser ter suas patologias curadas por propagadores dos direitos humanos e analistas de mercado. Líderes devem ser claros sobre certo e errado, mas quando eles promover sanções devem se preocupar mais com os resultados não com as aparências de virtuosidade.

Outro princípio é o do diálogo. Alguns dizem que aumenta a legitimidade. Na verdade, isso gera percepções, criando a chance de exercer influência e ajuda a resolver problemas – por exemplo, problemas climáticos, problemas de saída de grãos da Ucrânia, ou pedir ajuda a al-Shabab um filiado da Al-Qaeda a ajudar a Somália com problema de fome. Biden estava correto ao conversar com MBS. Emmanuel Macron, presidente francês, estava certo ao dialogar com Putin. Todos precisam conversar com o presidente chinês Xi Jinping.

Há muitas formas de manter o tom do diálogo honesto. Em reuniões pode-se falar sobre direitos humanos. Pode-se acalmar os contatos, como Macron fez após tropas russas cometerem crimes de guerra. Pode-se insistir conversando com opositores e dissidentes. Nessas e outras coisas, líderes ocidentais devem coordenar conjuntamente para evitar brigas internas – pelas ameaças chinesas de dissidentes ou o abuso dos Uyghures.

Um último princípio para se saber é que a política externa, assim como no governo, envolve o comércio. Para alguns países é tão óbvio que nem precisa afirmar. Mas o ocidente pensa que não precisa de ninguém. Esse comércio não precisa ser ilegal. Focando em evidência nos desdobramentos da invasão russa na Crimeia em 2014, leva a OTAN pensar em meios mais efetivos de sanções do que já postas. Infelizmente, a visão simplista de Biden em dividir o mundo em democracias e tiranias dificulta o comércio.

Ideias e suas consequências

O ocidente descobriu que impor seus valores em déspotas como MBS é um erro. Ao contrário, deveria focar em planos de persuasão e diálogo pacientes. Isso não pode ser tão gratificante como denúncias, boicotes e sanções simbólicas. Mas é mais sobre o fazer o correto.

Traduzido por Bruno Yudi Tamaki Inoue

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